"E ouvireis guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim." (Mateus 24:6)
Em março de 2026, há uma guerra ativa entre EUA, Israel e Irã. Há uma guerra em curso na Ucrânia com centenas de milhares de mortos. Há conflitos em Myanmar, Sudan, Yemen e outros teatros simultâneos. E em igrejas evangélicas ao redor do mundo, esse versículo está sendo citado como evidência de que o fim está próximo.
O problema é que guerras e rumores de guerras existiram em todos os séculos desde que Jesus pronunciou essas palavras. Isso era verdade em 70 d.C. Em 1914. Em 1939. Em 1945. Em 2001. E é verdade agora.
Se guerras e rumores de guerras são sinal do fim, então o fim esteve iminente em todo momento da história. Algo está errado com a interpretação.
O Contexto Original — Jesus Falando sobre 70 d.C.
Mateus 24 começa com uma cena específica: os discípulos mostrando a Jesus os edifícios do Templo. Jesus responde: "Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada." (24:2)
Os discípulos fazem duas perguntas: quando isso acontecerá, e qual será o sinal da volta de Jesus e do fim dos tempos. O Discurso do Monte das Oliveiras é a resposta de Jesus a essas duas perguntas — e a maioria dos comentaristas reconhece que parte da resposta se refere à destruição do Templo em 70 d.C. e parte aponta para algo além.
Os versículos 15-22 — sobre a "abominação da desolação" e a fuga de Judeia — têm um cumprimento histórico preciso: o cerco romano a Jerusalém em 66-70 d.C., quando os cristãos judeus que se lembraram da advertência de Jesus fugiram para Pela antes do cerco e sobreviveram.
O que os Versículos Realmente Significam
"Guerras e rumores de guerras" (24:6)
Jesus disse explicitamente que guerras e rumores de guerras não são sinal do fim: "é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim." A frase é advertência contra o pânico, não anúncio de iminência. Guerras fazem parte do cenário normal da história humana desde Caim.
"Nação se levantará contra nação" (24:7)
Isso foi literalmente verdadeiro no século I — as guerras judaico-romanas, as guerras civis romanas, as revoltas nas províncias. É verdadeiro em cada século subsequente. Não é marcador cronológico preciso.
"E então virá o fim" (24:14)
O versículo que dá estrutura a toda a seção: "Este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim." A condição não é "guerras suficientes" — é a proclamação do Evangelho a todas as nações. Esse versículo é orientação para ação, não para especulação.
O Debate Preterismo vs. Futurismo — e Por que Ambos Capturam Algo Real
O preterismo — que todo o Mateus 24 se cumpriu em 70 d.C. — tem a exegese histórica do seu lado. Leva a sério o "em breve" e o "esta geração não passará" (24:34). Mas tem dificuldade com versículos como 24:29-31, que descrevem eventos cósmicos que não aconteceram em 70 d.C.
O futurismo — que tudo está no futuro — tem a visibilidade dramática do seu lado. Mas ignora o contexto imediato de primeira leitura e transforma o texto em manual de previsão em vez de carta pastoral.
A posição mais honesta: parte de Mateus 24 se cumpriu em 70 d.C. Parte aponta para algo além. A fronteira exata entre as duas partes é genuinamente disputada entre estudiosos sérios — e qualquer intérprete que afirmar certeza completa está extrapolando o texto.
Fontes
Mateus 24:1-51 | Marcos 13 | Lucas 21 Wright, N.T. · Jesus and the Victory of God (Fortress Press, 1996) Josephus, Flávio · A Guerra Judaica (sobre 70 d.C.) Wikipedia EN · Preterism | Futurism (Christianity)

