A Invenção do "Falso": Como Atanásio de Alexandria Redefiniu os Apócrifos — e o Paradoxo que Ninguém Conta
Em 367 depois de Cristo, um bispo egípcio chamado Atanásio de Alexandria sentou para escrever sua carta anual de Páscoa. Era uma tarefa que ele realizava todos os anos desde que Niceia, em 325 d.C., havia delegado ao bispo de Alexandria a responsabilidade de anunciar a data da Páscoa para as igrejas do Oriente. Ele havia feito isso 38 vezes antes. A 39ª seria diferente.
Naquela carta — que ficou conhecida para sempre como a "39ª Carta Festal" — Atanásio de Alexandria listou pela primeira vez exatamente os 27 livros do Novo Testamento que conhecemos hoje. Esta lista precedeu os concílios formais e influenciou decisivamente suas decisões.
Mas Atanásio não apenas listou os livros aprovados. Ele criou uma categoria nova para os reprovados — e ao fazê-lo, transformou uma palavra grega neutra em estigma que persiste até hoje. A palavra era apókryphos. E sua história é muito mais complicada do que qualquer catecismo vai te dizer.
Quando comecei a estudar a formação do cânon bíblico depois da minha conversão em 2016, esse foi um dos primeiros pontos onde a narrativa simplista que aprendi na igreja começou a rachar. Não porque a Bíblia seja inválida — mas porque a história de como ela chegou às nossas mãos é fascinante, humana, e cheia de contradições que a fé honesta precisa enfrentar.
Quem era Atanásio — e Por que Seu Poder Importa para Entender a Lista
Antes de entender o que Atanásio fez com os apócrifos, é essencial entender quem ele era — porque sua posição de poder é inseparável da autoridade que sua lista carregou.
Atanásio foi também a primeira pessoa a identificar os mesmos 27 livros do Novo Testamento utilizados hoje em dia como canônicos. Como o cânon de Atanásio é, dentre os padres da Igreja, o que mais se parece com o cânon utilizado pelas igrejas protestantes modernas, muitos teólogos protestantes apontam Atanásio como o "Pai do cânon".
Mas Atanásio não era apenas um erudito. Era o líder religioso mais poderoso do Oriente cristão — bispo de Alexandria por 45 anos, exilado cinco vezes por imperadores romanos que apoiavam seus adversários teológicos, defensor feroz da divindade de Cristo contra o arianismo. A expressão "Atanásio contra o mundo" — Athanasius contra mundum — existe porque ele literalmente enfrentou concílios, imperadores e a maioria dos bispos do Oriente sozinho, recusando-se a ceder.
Esse contexto importa. A 39ª Carta Festal não foi escrita num vácuo intelectual. Foi escrita por um homem que havia passado décadas combatendo o que considerava heresia, exilado por imperadores que apoiavam seus adversários, e que havia aprendido, na prática, o quanto uma definição clara de fronteiras teológicas podia ser decisiva para a sobrevivência da ortodoxia que ele representava.
Quando Atanásio escreveu sua lista em 367 d.C., ele não estava apenas organizando uma biblioteca. Estava traçando uma linha de batalha.
As Três Categorias que Atanásio Criou — e a que a História Esqueceu
Atanásio distinguiu três categorias: livros "canonizados" (27 do NT), livros "lidos" (Didaquê, Pastor de Hermas) e livros "apócrifos" (rejeitados). Esta classificação tripartite tornou-se modelo para listas posteriores e influenciou os concílios africanos.
Essa distinção tripartite é crucial — e é exatamente a que a história posterior apagou.
A primeira categoria — os 27 canônicos
Os livros que Atanásio declarou divinamente inspirados e autoritativos para toda a Igreja. Os mesmos 27 que você encontra em qualquer Bíblia evangélica hoje.
A segunda categoria — para leitura, não canônicos
Há outros livros, além desses, de fato NÃO incluídos no Cânon, indicados pelos Padres para leitura por aqueles recém-admitidos entre nós e que desejam receber instrução sobre a Palavra de Deus: a Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Sirac, Ester e Judite, Tobias, bem como aqueles chamados Ensinamento dos Apóstolos e o Pastor.
Aqui está algo que a narrativa protestante raramente menciona: o Didaquê — um dos textos cristãos mais antigos que existem, contemporâneo do NT — foi colocado por Atanásio não na categoria dos heréticos, mas na categoria dos úteis para instrução. Ele não o baniu. Apenas não o canonizou.
A terceira categoria — os verdadeiramente apócrifos
Além destes, Atanásio lista também os livros que devem ser rejeitados, chamando-os de apócrifos (apocrypha) e descrevendo-os como "uma invenção dos heréticos, que os escrevem quando querem, aprovando-os e inventando para eles uma data para que, fazendo-os passar por obras antigas, encontrem formas de afastar os mais simplórios da verdade".
O problema que a história criou: essa terceira categoria — textos especificamente criados por hereges para enganar — foi progressivamente confundida com qualquer texto fora do cânon. "Apócrifo" passou a significar "falso" de forma geral, quando Atanásio havia feito uma distinção muito mais cuidadosa.
O Paradoxo Incontornável — Judas Cita como Profecia um Livro que Atanásio Baniu
Aqui está o fato que qualquer pessoa com uma Bíblia pode verificar em dois minutos — e que raramente é ensinado porque é perturbador demais para a narrativa de que o processo canônico foi limpo e divinamente evidente.
A Epístola de Judas está na lista dos 27 livros aprovados por Atanásio. É um texto canônico, reconhecido como Escritura inspirada. E Judas 1:14 diz o seguinte: "Enoque, o sétimo após Adão, profetizou acerca destes homens, dizendo: Eis que o Senhor vem com milhares dos seus santos."
Essa citação vem diretamente do Livro de Enoque — especificamente de Enoque 1:9. O Livro de Enoque é um texto que Atanásio excluiu do cânon.
Deixe isso assentar: um dos 27 livros que Atanásio declarou divinamente inspirados cita explicitamente, como profecia, um livro que ele declarou fora do cânon. O autor canônico que Atanásio aprovou usou como fonte autoritativa um texto que Atanásio não canonizou.
Estudiosos conservadores oferecem respostas razoáveis: talvez Judas citasse uma tradição oral sobre Enoque; talvez o Livro de Enoque preserve uma profecia genuína mesmo que o restante não seja canônico. Essas são respostas possíveis. Mas elas exigem admitir que a fronteira entre canônico e não-canônico não é tão nítida quanto a lista de Atanásio sugere.
Como a Lista de Atanásio Se Tornou Lei — O Processo dos Concílios
A 39ª Carta Festal não era, por si só, juridicamente vinculante para toda a Igreja. Era a opinião autoritativa de um bispo influente. O que transformou a lista em norma foi um processo que levou décadas:
O papa Dâmaso I, bispo de Roma em 382, promulgou uma lista de livros que continha os mesmos livros propostos por Atanásio. Um sínodo em Hipona, em 393, repetiu a lista de Atanásio e Dâmaso (sem a Epístola aos Hebreus) e um concílio em Cartago em 397 repetiram-na novamente.
A lista de Atanásio não encerrou esse assunto e em 397 d.C., o Concílio de Cartago confirmou sua lista, mas as igrejas ocidentais demoraram ainda muito tempo para estabelecer o cânon. A contenda continuou com relação aos livros questionáveis, embora todos terminassem aceitando o Apocalipse. No final, a lista de Atanásio recebeu aceitação geral e, desde então, as igrejas por todo o mundo jamais se desviaram de sua sabedoria.
Há um detalhe crucial que a narrativa popular frequentemente omite: mesmo depois de todos esses concílios, a questão não estava completamente encerrada. A Igreja síria não usa o Apocalipse em sua Bíblia oficial — a Peshitta — até hoje. A Igreja etíope usa o Livro de Enoque como canônico — o mesmo que Judas cita. Lutero, no século XVI, moveu Tiago, Judas, Hebreus e o Apocalipse para um apêndice separado em sua Bíblia alemã.
O cânon que você tem é o resultado de um processo de séculos, não de uma revelação única e indiscutível.
O que Foi Perdido com a Redefinição da Palavra "Apócrifo"
Quando "apócrifo" se tornou sinônimo de "falso e herético", algo foi perdido que vai além dos textos excluídos.
O que foi perdido foi a possibilidade de uma leitura mais honesta da diversidade do Cristianismo primitivo. Os textos que Atanásio chamou de apócrifos não eram, na sua maioria, invenções de hereges sem base. Eram documentos que comunidades cristãs reais — com fé genuína, com práticas devocionais reais, com teologias desenvolvidas ao longo de décadas — consideravam valiosos ou até sagrados.
O Pastor de Hermas, por exemplo, estava no Codex Sinaiticus — um dos manuscritos mais antigos do NT que possuímos, datado do século IV. Não estava lá por acidente. Estava porque quem produziu aquele manuscrito o considerava parte da Escritura cristã. Atanásio o colocou na segunda categoria — "para leitura" — reconhecendo implicitamente seu valor. Mas o estigma de "apócrifo" que a história posterior aplicou indiscriminadamente enterrou esse reconhecimento.
O que Isso Significa para Quem Lê a Bíblia no Deserto
Saber que Atanásio definiu o cânon em 367 d.C. — não Deus, num decreto celestial — não torna a Bíblia menos poderosa. Ela sobreviveu através de séculos de transmissão manual, de disputas políticas, de concílios convocados por imperadores, de Reformas que questionaram sua interpretação.
E ela ainda transforma vidas. Ainda faz perguntas que nenhum outro texto faz com a mesma densidade. Ainda aponta para um Jesus que continua sendo o personagem mais fascinante e mais perturbador da história humana.
O que muda quando você sabe essa história é a sua relação com o texto. Você deixa de ser um consumidor passivo de uma revelação que "simplesmente estava lá" e se torna um leitor ativo — alguém que sabe que está segurando o resultado de um processo humano fascinante, contraditório, marcado por genialidade e por limitação.
Atanásio era um homem de fé extraordinária. Também era um homem de poder extraordinário. Sua lista foi resultado de ambos. E reconhecer isso — sem precisar destruir nem santificar — é o que significa ler a Bíblia como adulto.
Perguntas Frequentes sobre Atanásio e os Apócrifos
O que foi a 39ª Carta Festal de Atanásio?
Foi uma carta pastoral escrita em 367 d.C. pelo bispo de Alexandria para anunciar a data da Páscoa — prática anual estabelecida pelo Concílio de Niceia. Nessa carta específica, Atanásio incluiu pela primeira vez uma lista completa dos 27 livros do NT que conhecemos hoje, tornando-se o primeiro documento a listar exatamente esse conjunto de textos como canônicos.
O que significa "apócrifo" originalmente?
Em grego, apókryphos significa simplesmente "oculto" ou "escondido" — sem conotação negativa intrínseca. Alguns grupos cristãos primitivos chamavam de apócrifos seus textos mais valiosos, reservados para iniciados maduros. Atanásio restringiu o termo a textos que ele considerava invenções heréticas — mas a história posterior aplicou o estigma de forma mais ampla a qualquer texto fora do cânon.
Por que Judas cita o Livro de Enoque se ele não é canônico?
Judas 1:14 cita diretamente Enoque 1:9 como profecia. O Livro de Enoque não foi incluído no cânon cristão ocidental, mas é canônico na Igreja etíope até hoje. O fato de um livro canônico citar como autoritativo um texto não-canônico revela que a fronteira entre os dois grupos não era tão nítida quanto a narrativa institucional sugere.
Atanásio foi o único a decidir o cânon?
Não. Sua lista foi influente, mas precisou ser confirmada por concílios: o Sínodo de Hipona (393), o Concílio de Cartago (397) e outro Concílio de Cartago (419), todos com a participação decisiva de Agostinho. Além disso, diferentes tradições cristãs ainda hoje usam cânones ligeiramente diferentes — a Igreja etíope, a síria e outras.
Isso significa que livros errados estão na Bíblia?
Não necessariamente. Significa que o processo de seleção foi humano — com critérios legítimos aplicados por pessoas em contextos históricos específicos, com pressões políticas e teológicas reais. Reconhecer a humanidade do processo não invalida o resultado. Invalida a ideia de que qualquer instituição humana atual tem acesso privilegiado à verdade sobre o que Deus quis que você lesse.
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— Rodrigo Ramos · Evangelista e fundador da Voz do Deserto Convertido em 2016. Estudioso de teologia bíblica, história da Igreja e textos apócrifos.

