Voz do Deserto

O Grande Outro Está Assistindo: Capitalismo de Vigilância, Privacidade e o Deus que Vê Diferente

24 de março de 2026·7 min de leitura
O Grande Outro Está Assistindo: Capitalismo de Vigilância, Privacidade e o Deus que Vê Diferente

Sou o Rodrigo, e esta é a investigação que mais me incomodou de escrever para o Voz do Deserto.

Não porque o tema seja novo. Mas porque, enquanto pesquisava, percebi que eu mesmo havia aceitado o contrato sem ler as letras miúdas.

Você também aceitou. Todos nós aceitamos.

O Contrato que Ninguém Leu

O mundo online, que era gentil com o nosso mundo, transformou-se no lugar onde o capitalismo desenvolve novos meios pela extração de dados em vez da produção de novos bens — gerando intensas concentrações de poder que ameaçam núcleos de valores como a liberdade e a privacidade.

Essa é a síntese de Shoshana Zuboff, professora emérita de Harvard e autora de A Era do Capitalismo de Vigilância. Ela não está descrevendo uma conspiração de ficção científica. Está descrevendo o modelo de negócios que financia cada plataforma gratuita que você usa diariamente.

O mecanismo é preciso: as empresas de tecnologia extraem e refinam dados do comportamento dos usuários para que se tornem dados de predição de comportamento — capazes de prever os próximos passos do usuário antes até dele mesmo. O passo seguinte é vendê-los a preço de ouro já que, com isso em mãos, é possível influenciar o comportamento humano.

Você não é o cliente. Você é a matéria-prima.

O Big Other que Zuboff Nomeou

George Orwell imaginou o "Grande Irmão" como um Estado totalitário com câmeras nas paredes. O que Zuboff encontrou é mais sofisticado e, por isso, mais difícil de combater.

O capitalismo de vigilância gera uma nova espécie de poder chamado de instrumentarismo. O poder instrumentário conhece e molda o comportamento humano em prol das finalidades de terceiros, manifestando-se por meio de uma arquitetura computacional ubíqua, composta por dispositivos conectados em rede que operam de maneira invisível, mas eficaz.

O Grande Irmão precisava de um Estado. O Big Other precisa apenas de um smartphone e de um contrato de termos de uso que ninguém lê.

Essa exploração ocorre de maneira quase imperceptível, infiltrando-se em áreas como trabalho, educação, política, práticas religiosas e lazer. Tudo é quantificado e controlado com o objetivo de maximizar lucros, muitas vezes sem qualquer reflexão.

Práticas religiosas. O seu tempo de oração, os versículos que você pesquisa, as músicas de adoração que você escuta, os grupos de fé que você frequenta digitalmente — tudo isso é dado comportamental coletado, refinado e vendido. O mercado não respeita o altar.

O Que os Profetas Chamaram Antes de Zuboff

A Bíblia tem uma palavra para sistemas que transformam pessoas em recursos a serem extraídos: opressão.

Amós, o pastor de Tecoa que pregou no século VIII a.C., foi ao centro financeiro do norte de Israel e denunciou com linguagem cirúrgica: "Vocês que esmagam os necessitados e arruínam os pobres da terra... comprando o necessitado por um par de sandálias" (Am 8.4-6). O sistema que ele descrevia era sofisticado: manipulação de pesos e medidas, câmbio fraudulento, exploração da vulnerabilidade. Era, em linguagem contemporânea, extração sistemática de valor de quem não tinha poder para negociar os termos do contrato.

Shoshana Zuboff descreveu a internet e as redes sociais como "um experimento social falido que deixou um rastro de destroços na sociedade" e um vazio político, social e econômico, com a destruição total da privacidade, a anulação de direitos fundamentais, o aprofundamento da desigualdade social e o envenenamento do discurso político.

Amós teria entendido perfeitamente.

O profeta Jeremias, que Jesus citou ao atacar o Templo, disse algo que reverbera aqui com força estranha: "Podem esconder-se em lugares secretos para que eu não os veja? Não preencho os céus e a terra?" (Jr 23.24). O contexto era a denúncia de falsos profetas que achavam que podiam operar no escondido. Mas a inversão profética é poderosa: há um olhar que tudo vê — e esse olhar pertence a Deus, não ao mercado.

Dois Olhares Sobre o Mesmo Humano

Aqui está o ponto teológico que me parece mais urgente neste debate.

A Bíblia afirma que Deus conhece cada cabelo da sua cabeça (Mt 10.30), cada palavra antes de ser pronunciada (Sl 139.4), cada movimento e descanso (Sl 139.2-3). É um conhecimento total, absoluto, sem brechas.

O capitalismo de vigilância também aspira ao conhecimento total. As empresas usam não apenas as informações que os usuários permitem nas postagens, mas também as fornecidas em formulários mesmo que sem consentimento e, ainda, aquelas ouvidas pelos microfones ou vistas pelas câmeras de celulares, computadores e caixas de som.

A estrutura parece semelhante. O propósito é radicalmente oposto.

O Deus bíblico que conhece tudo de você é o mesmo que, segundo o evangelho de João, "tanto amou o mundo" que escolheu entrar nele, tornar-se vulnerável nele, morrer dentro dele. O conhecimento existe a serviço do amor e da restauração. Você é conhecido para ser amado.

O capitalismo de vigilância conhece você para prever seu comportamento e vendê-lo. A competição nesse mercado leva os capitalistas de vigilância a buscar dados cada vez mais preditivos, como nossas vozes, emoções e personalidades. Suas emoções mais íntimas são "dados preditivos". Seus medos são variáveis numa equação de lucratividade.

Um olhar é amor. O outro é extração. E confundi-los é o erro espiritual mais perigoso da era digital.

A Escolha Ilegítima que Nos Foi Imposta

Em suma, o capitalismo de vigilância impõe uma escolha ilegítima aos indivíduos do século XXI, moldando nosso comportamento sem nosso consentimento. Ele acumula vastos domínios de conhecimento sobre nós, utilizando esse poder para fins que não nos beneficiam.

"Escolha ilegítima" é a expressão precisa. Não é uma escolha real. É aceitar os termos de uso de 47 páginas para poder continuar usando o aplicativo que toda a sua comunidade já usa. É concordar com a coleta de dados para poder ter acesso ao serviço do qual sua vida profissional depende. É o câmbio obrigatório do Templo de Herodes com interface de usuário.

E Zuboff alerta: "Não tenha dúvida: esta é a luta pela alma de nossa civilização. Nós podemos ser uma sociedade de vigilância ou uma democracia, mas não podemos ser ambas as coisas ao mesmo tempo."

A clareza dessa afirmação devia ecoar em cada púlpito. Não como tecnofobia, mas como discernimento profético: sistemas que reduzem a pessoa humana a dado comportamental monetizável são incompatíveis com qualquer teologia da dignidade humana como Imago Dei.

O Deserto como Postura, Não como Fuga

O estudo que me motivou a escrever este artigo falava em "tornar-se invisível para o sistema". Entendo o impulso. Mas o deserto bíblico nunca foi um lugar de fuga do mundo — foi um lugar de clareza antes do retorno ao mundo.

Moisés voltou do deserto para enfrentar o Faraó. João Batista pregava no deserto para multidões que vinham até ele. Jesus foi ao deserto para discernir sua missão — e voltou para Jerusalém.

A resposta profética ao capitalismo de vigilância não é desaparecer. É voltar com clareza sobre o que você recusa participar.

Recusa de tratar sua existência como produto. Recusa de oferecer sua atenção, suas emoções e seus padrões de comportamento como matéria-prima para sistemas que lucram com sua previsibilidade. Recusa de confundir o olhar que extrai com o olhar que ama.

Isso começa com coisas pequenas e concretas: entender o que acontece com seus dados, revisar as permissões que você concedeu sem ler, escolher ferramentas de comunicação que não monetizam o conteúdo das suas conversas, separar o espaço de oração e reflexão do fluxo constante de estímulos projetados para maximizar seu tempo de tela.

Não é paranoia. É higiene espiritual.

A Pergunta que Fica

Como devemos estruturar, organizar e controlar as infraestruturas e os sistemas globais de informação e comunicação de forma a preservar e fortalecer os princípios e os valores democráticos? Que novas leis, estruturas e instituições são necessárias para garantir que a coleta de dados digitais sirva aos interesses individuais e coletivos dos cidadãos, e não de um reduzido grupo de empresas poderosas?

São as perguntas de Zuboff. Mas são também, em outros termos, as perguntas que os profetas bíblicos sempre fizeram: a quem serve este sistema? Quem paga o custo? Quem lucra com a vulnerabilidade de quem não tem poder de negociar?

O deserto sempre foi o lugar onde essas perguntas podem ser feitas sem o barulho dos mercados respondendo por cima.

Continuo vigilante — em mais de um sentido.


Fontes

  • ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021. Obra central da análise.
  • ZUBOFF, Shoshana. Big Other: Surveillance Capitalism and the Prospects of an Information Civilization. Journal of Information Technology, v. 30, n. 1, p. 75–89, 2015. [O conceito de Big Other como poder instrumentário]
  • Fundação FHC / Aberje. Debate online com Shoshana Zuboff: Capitalismo de Vigilância e Democracia. Abr. 2024. Disponível em: fundacaofhc.org.br.
  • Jusbrasil / Resenha Acadêmica. A Era do Capitalismo de Vigilância: Uma Análise Crítica. Dez. 2023. Análise do conceito de "superávit comportamental" e do papel do Google na consolidação do modelo.
  • SAMPAIO et al. Capitalismo de Vigilância e a Ameaça aos Direitos Fundamentais da Privacidade e da Liberdade de Expressão. Revista Jurídica Unicuritiba, v. 1, n. 63. [Análise jurídica dos impactos do capitalismo de vigilância]
  • Revista ESMAT. Capitalismo de Vigilância e Sociedade Brasileira: Análise Crítica e Jurisprudencial a partir de Shoshana Zuboff. 2025. [Contexto brasileiro: desigualdade digital, reconhecimento facial pelo Estado]
  • ELLUL, Jacques. The Technological Society. Knopf, 1964. [Autonomia e determinismo da técnica como contexto filosófico anterior]
  • Textos Bíblicos: Am 8.4-6 [Denúncia profética de sistemas de extração]; Jr 23.24 [O olhar de Deus que não pode ser evitado]; Sl 139.1-6 [O conhecimento total de Deus como proteção, não vigilância]; Mt 10.29-31 [O valor do indivíduo perante Deus]; Jo 3.16 [O conhecimento que existe a serviço do amor]
  • ORWELL, George. 1984. [Referência ao "Grande Irmão" como contraponto conceitual ao "Big Other" de Zuboff]

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Rodrigo Ramos — Voz do Deserto

Escrito por

Rodrigo Ramos

Evangelista · Pesquisador · Voz do Deserto

Rodrigo Ramos estuda o que ninguém ensina na faculdade de teologia e o que ninguém quer ouvir na faculdade de tecnologia: que os dois estão descrevendo a mesma coisa. Origens cristãs. Manuscritos esquecidos. Escatologia tecnológica. O sistema que está sendo construído — e o chamado para sair dele antes que as portas fechem. Voz do Deserto — para quem ainda está acordado.