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Onisciência em Cheque: Por que Jesus Disse que Não Sabia a Hora do Fim?

25 de fevereiro de 2026·5 min de leitura
Onisciência em Cheque: Por que Jesus Disse que Não Sabia a Hora do Fim?

Onisciência em Cheque: Por que Jesus Disse que Não Sabia a Hora do Fim — e o que Isso Revela sobre a Encarnação

Existe um versículo nos Evangelhos que gerou mais desconforto teológico do que qualquer heresia declarada. Não está escondido em algum manuscrito apócrifo. Está em Marcos 13:32, claro como água:

"Mas a respeito daquele dia e daquela hora, ninguém sabe, nem os anjos nos céus, nem o Filho, mas somente o Pai."

Nem o Filho sabe. O próprio Jesus, segundo Marcos, declarou ignorar a data do fim dos tempos.

Para quem foi ensinado que Jesus era onisciente — que sabia tudo, sempre, sem limite, com acesso completo a toda informação do universo — esse versículo é uma pedra no caminho. Para quem está disposto a ler o texto com honestidade, sem precisar que ele diga algo diferente do que diz, é uma das janelas mais reveladoras sobre o mistério da Encarnação.


O Versículo que Ninguém Consegue Apagar

Marcos 13:32 é parte do Discurso do Monte das Oliveiras — a grande profecia escatológica de Jesus sobre a destruição do Templo e os sinais dos tempos. Jesus acabou de descrever eventos cósmicos dramáticos — o sol escurecendo, as estrelas caindo, o Filho do Homem vindo nas nuvens.

E então, sobre quando exatamente tudo isso acontecerá, ele diz: "ninguém sabe, nem os anjos, nem o Filho, apenas o Pai."

A frase "nem o Filho" é gramaticalmente e contextualmente inequívoca. Não é ambígua. Não precisa de interpretação elaborada para ser perturbadora. Jesus, no texto de Marcos, afirma ignorância sobre algo.

A reação dos copistas ao longo dos séculos confirma o problema: o versículo paralelo em Mateus 24:36 também contém "nem o Filho" na maioria dos manuscritos — mas em alguns manuscritos tardios, a frase foi simplesmente removida. O desconforto teológico gerou uma variante textual.


Como a Teologia Ortodoxa Respondeu — a Kenose

A resposta mais sofisticada e mais influente que a cristologia ortodoxa desenvolveu para esse versículo é a doutrina da kenose — palavra grega que significa esvaziamento, tirada de Filipenses 2:7.

Paulo escreve sobre Jesus: "Mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens."

O verbo é ekenōsen — esvaziou-se. A doutrina da kenose, desenvolvida principalmente no século XIX pela teologia alemã (Gottfried Thomasius entre outros), afirma que na Encarnação o Filho eterno voluntariamente limitou o exercício de alguns atributos divinos — incluindo a onisciência — para viver genuinamente dentro das condições humanas.

Isso não significa que Jesus deixou de ser Deus. Significa que no estado de humilhação encarnada, ele operava dentro dos limites que a carne humana impõe — incluindo limites de conhecimento situacional.


Outros Momentos nos Evangelhos que Apontam na Mesma Direção

Marcos 13:32 não está sozinho. Há outros momentos nos Evangelhos em que a narrativa sugere limitação de conhecimento em Jesus:

"Quem me tocou?" — Marcos 5:30-31

Quando a mulher com hemorragia tocou a borda do manto de Jesus, ele perguntou: "Quem me tocou?" O texto diz que ele sentiu que poder havia saído dele — mas não sabia quem havia tocado. Os discípulos estranharam: "A multidão está te comprimindo por todos os lados e perguntas quem te tocou?"

A narrativa pode ser lida como retórica — Jesus sabia e estava abrindo espaço para a mulher se identificar. Mas também pode ser lida literalmente: a sensação de poder saindo foi real e involuntária, e ele genuinamente não sabia a origem imediata.

"Onde o pusestes?" — João 11:34

Antes de ressuscitar Lázaro, Jesus pergunta: "Onde o pusestes?" Os que estavam presentes o levam ao túmulo. Novamente: pode ser retórica. Ou pode ser que Jesus, em sua humanidade, perguntou porque genuinamente não sabia o lugar exato do sepulcro.

O crescimento em sabedoria — Lucas 2:52

Lucas 2:52 descreve o crescimento de Jesus: "E Jesus crescia em sabedoria e estatura, e em graça para com Deus e os homens."

Se Jesus era onisciente desde o berço, crescer em sabedoria é impossível. O versículo afirma desenvolvimento cognitivo real — um processo de aprendizagem que pressupõe que havia coisas que Jesus não sabia antes de aprender.


O que Isso Significa para a Fé

A onisciência é um atributo divino. Se Jesus é Deus, espera-se que seja onisciente. O versículo de Marcos 13:32 levanta um paradoxo que a teologia cristã não resolveu definitivamente — e provavelmente não resolve porque estamos diante de um mistério que excede a capacidade da linguagem humana de capturar.

O que a kenose sugere é que a Encarnação foi real o suficiente para envolver limitações reais — não um Deus disfarçado de humano mantendo todos os seus atributos divinos enquanto fingia ser como nós. Mas um Deus que se tornou genuinamente humano, com tudo que isso implica.

Para quem está no deserto — orando e sentindo que Deus parece distante, que as respostas não chegam, que o futuro está opaco — há algo profundamente libertador no Jesus de Marcos 13:32. Ele não operava com o script completo do futuro. Confiava no Pai dentro dos limites da carne. E esse tipo de fé — confiança sem onisciência, escolha sem certeza completa — é exatamente o tipo de fé que o deserto produz.


Perguntas Frequentes sobre a Onisciência de Jesus

Marcos 13:32 significa que Jesus não era Deus?

Não necessariamente. A cristologia ortodoxa usa a doutrina da kenose para explicar que na Encarnação o Filho voluntariamente limitou o exercício de alguns atributos divinos, incluindo onisciência plena, para habitar genuinamente a condição humana. O versículo revela limitação no estado encarnado, não ausência de natureza divina.

O que é kenose?

É a doutrina teológica que interpreta Filipenses 2:7 — "esvaziou-se a si mesmo" — como referência ao autoesvaziamento do Filho na Encarnação. Na kenose, o Filho voluntariamente limitou o exercício pleno de seus atributos divinos — onisciência, onipotência — para habitar genuinamente a condição humana.

Por que alguns manuscritos de Mateus 24:36 não têm "nem o Filho"?

Porque a frase perturbava copistas que a consideravam incompatível com a divindade de Cristo. A omissão de "nem o Filho" em alguns manuscritos tardios de Mateus é exatamente o tipo de alteração teologicamente motivada que o livro The Orthodox Corruption of Scripture de Ehrman documenta.

Lucas 2:52 afirma que Jesus cresceu em sabedoria. Como isso é possível se era Deus?

Pela mesma lógica da kenose: a Encarnação foi real o suficiente para envolver crescimento cognitivo genuíno. Jesus aprendeu coisas que não sabia antes — como qualquer criança humana. Afirmar que Jesus apenas fingia aprender, enquanto já sabia tudo, seria transformar a Encarnação num teatro.


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— Rodrigo Ramos · Evangelista e fundador da Voz do Deserto Convertido em 2016. Mais de 50 cursos de teologia. Escreve para quem parou de ir à igreja mas não parou de buscar a Deus.


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Rodrigo Ramos — Voz do Deserto

Escrito por

Rodrigo Ramos

Evangelista · Pesquisador · Voz do Deserto

Rodrigo Ramos estuda o que ninguém ensina na faculdade de teologia e o que ninguém quer ouvir na faculdade de tecnologia: que os dois estão descrevendo a mesma coisa. Origens cristãs. Manuscritos esquecidos. Escatologia tecnológica. O sistema que está sendo construído — e o chamado para sair dele antes que as portas fechem. Voz do Deserto — para quem ainda está acordado.